sábado, 30 de julho de 2011

Saboreando...



Quem não se ama, não ama...
Essa era a minha frase da vez. Saiu de minha boca como quem anuncia chuva fértil. Com que come as frutas molhadas da chuva e depois chupa o dedo.
Hoje é sábado. Não escrevo desde quarta. Não porque não tenha o que falar, mas por falta de tempo para  mim mesma. Mas hoje me dei. Por teimosia, até. E por uns desses insigths que a vida nos dá, nossos 'brilhantismo instantâneos'.
Cá entou eu, em companhia de meu fiel, peludo, e marrom escudeiro - hoje ele precisando mais de mim do que eu dele. Nós e o silêncio providencial da casa. Eu, ele, um velho e macio edredom e um bule de chá. Ah, e meu presente do dia...ou mais um. Um filme, na não esperada muda noite.
O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, um filme que, mesmo se revendo, sempre parece a primeira vez, aquela mágica vez em que conhecemos - e nos apaixonamos - por um filme, um enredo, uma ideia, uma história. Quem sabe uma personagem - ou muitas. Quem sabe nos faz lembrar de uma pessoa, de um sentimento, por mais distante, por mais quieto que seja. Por mais discreto. Plantar o amor. Viver para ele até que nos chegue.  Jogar sementes dele por ai, como quem dá uma de vento ou beija-flor. Quem sabe frágil borboleta recém saída do casulo. Quem sabe façam abrir, desabrochar nossas próprias flores. Quem sabe...Eu, que já conheci o amor de tantas formas e cores, de tantos cheiros, que já semeei sem nem me preocupar se a cor era amarela ou rosa, se era rosa ou jasmim, mereço. 
Sou Amélie. Mulher simples que quer uma simples vida. Que vê nas coisas simples, ela refletida. Que viu no amor infantil, história. Que vê no amor do filho, fiada sem fim, tricot de uma vida. Que procura no amor maduro, esperança. Que sofre como ela sofre também por esperar, espero que não demais. Que quer todo mundo ao seu redor bem, mesmo que para isso se esqueça. Que reza todo dia para não deixar a vida passar em vão. Que o relógio pare para dizer amém. Não quer da vida simples filme, começo, meio e fim: quer enredo. E do bom. De chorar, até, mas da mais pura emoção. 
Quase uma década e Amélie persiste, insiste, não se deixa morrer. Para ela, quem ama, se ama. Para mim, quem não se ama, não ama. Somos a mesma em tons contrários.
E ponto final. Final feliz.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Melada


Mais um dia começa, assim, igual a  tantos outros que já passaram. Mas, você diria, cada dia é um, único. Concordo. O dia é único, apesar de chegar em hora predeterminada e se ir aos poucos, como quem nos leva. Mas a forma com que se vive, sempre a mesma, apesar de nossas tantas tentativas de fazer diferente , de fazer a diferença.
Uma vez fiz um texto falando que deixávamos para viver intensamente nos finais de semana, e que fazíamos do dia-a-dia  uma coisa não morna, porque nos queimamos de tantas atividades, mas sem sal. Ou pelo menos sem gosto. Um viver mesquinho. Atropelamos as horas, como quem passa por cima e nem dá bola. Vivemos, sim, pois estamos vivos. Mas não vivenciamos, o que é, por si só, muito diferente. Deixamos que os problemas, muito insolúveis, outros até banais - o simples lembrar que tem que comprar pão - tomem conta total de nossa mente. Sufoco de belas ideias, tampão de olhos para coisas boas que, sim, acontecem, mas a gente nem se dá conta. Não vê, cegueira de se deixar levar. Ou se dá conta, mas só das contas altas demais para se pagar. E é em breves momentos de nos vivermos, vivenciarmos as coisas, que descobrimos que podemos ser felizes, que somos felizes, senão o tempo todo - coisa que nem os palhaços  e as crianças o são, mas um pouco, pitada do dia. Nossa malagueta diária - ou pelo menos canela ou açúcar de baunilha, não importa. Como se o sufoco  - ou a mesmice - de viver o dia fossem deixando a gente anestesiada, ligada no piloto automático. Cumpridores de listas, repassadores de agendas. E 'vai que vai'!
Ontem, o que era para ser um desastre, fila enorme no cinema ( e dizem que brasileiro não vai ao cinema...) e entradas se esgotando, pegamos três filas ( ingresso, pipoca e acesso à sala). E na dúvida de ser feliz ou deixar para sê-lo depois, ficamos. E o resultado foram momentos de relax, muita risada e picardia. Depois, um bom papo, um lanche leve mas divertido, mais umas risadas - sempre por conta de minha visão desligada, por vezes, da vida - e uma volta para casa  acompanhada de bela sensação: 
a de ter vivido. O dia não foi me vão...muito menos a noite!
Hoje o sol me acordou  - e antes dele um passarinho - e me deixou na porta da casa os problemas do dia, lista interminável. Que bom seria se os bons momentos de ontem adoçassem esse dia, fizessem lembrar que a vida não deve ser devorada, como quem come rápido para sair da mesa. Mas como um único e gostoso doce, que a gente saboreia, se mela toda e ainda chupa os dedos sem frescura - não sem soltar uns gemidos, tantos hummmms e haaaaaas, marca registrada. Sentir cada bocada, o doce passeando pela boca, o gosto lembrando um tempo bom, a boa sensação vivida. A vontade de fazer do momento , muito. Sem culpa, sem pena e sem vergonha. Sem medo de viver a vida.
É Séneca tinha razão...
"Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida".

domingo, 24 de julho de 2011

Luz...


 
"A vida começa todos os dias ."
Érico Veríssimo

Essa bela  e verdadeira frase do poeta e escritor gaúcho serve de alerta. A cada dia se aprende algo. Eu aprendo - e comemoro cada momento que me vem, o bom e o nem tanto. Pego-me festejando cada ganho - ou perda necessária. Emociono-me, mesmo, sem sentir a menor vergonha. Aliás, vergonha eu só tenho do que não faço. De como me trato, do quando deixo as culpas, que nem me cabem, serem enfiadas em minha cabeça feito chapéu enorme, tapando olhos. Bom se tapassem os ouvidos para as coisas que me entram sem nem pedir licença.
Mas, enfim, cada dia tenho uma página nova e nela entra tudo que vem,eu querendo ou não. Os medos e a coragem. As perdas e os ganhos. As lutas insanas ou nem tanto. Vida colorida ou cinza, por vezes preta mesma. Mas no conjunto todo, pontuado por estrelas criadas por mim, o resultado é bom, se me deixo ver com olhos só meus. Ou com os olhos de quem torce por mim, olhos de me amar.  E isso, de ver um lado colorido mesmo num céu eternamente nublado, é coisas de gente que quer ser feliz, como eu. Teimosa. Positiva. Que pensa no arco-íris que a espera depois da tempestade.  Por isso me cobro também, muito,  que tudo dê certo. Para que eu não faça pouco caso dos meus sonhos. Para que eu não desista. Ou pelo menos não me apertem o pescoço. Gosto de colar, até coleira se me interessar, mas não corda de enforque.
Esse final de semana aprendi   - ou melhor dizer que relembrei? - a não dar murro em ponta de faca. Ou pano para manga de roupa que não quero mais usar.  Remendar demais trapos já há muito poidos.  Levar as coisas não tão a serio se forem para me magoar. A vida, minha, só vale a pena . Pegar o que me serve e não tentar usar o que não me cabe.  Enfim: não tentar fazer do meu mundo um inferno proposto por outros. Centrar-me no que quero, no que me dá, no que sonho, no que espero. E  não nas pedras do caminho. Elas, como já disseram por ai, vão me dar base para um belo castelo. Ou muralha. E eu, estarei no meu castelo. E feliz. Como sempre quis.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Ufa...



Hoje cometi um 'joycídio'. Matei a mim  mesma e o que tenho de melhor - ou quase - ao, finalmente, depois de duas semanas  de 'folga', cumprir com minha 'obrigação' de 'dona do lar' ( título que me vem só na teoria, bom se na prática) . É, não se irrite, nem estranhe: essa frase ai é assim, cheia de ' entre aspas', ou seja, cheia de mitos que deveríamos quebrar, mas não o fazemos - e vai lá saber os porquês.
Mas isso não vem ao caso - ou ao texto. A verdade é que tive que ir ao supermercado . E aqui já vai uma ressalva : sou duas. Uma que detesta ir quando é por 'ter que' - e nela outras aspas com o mesmo significado -  e outra que ama quando é por querer. E digo mais: adoro, mas só até chegar ao caixa. E não é só pelo pagar, não, que me faz suar vez por outra. É só de lembrar que, dali para frente, é um tal de ensaca, põe no carrinho, desce ao estacionamento, abre o carro, põe no porta-malas, fecha o porta -malas, se livra do carrinho, sai com o carro, pega fila na saída, pega trânsito, chega em casa, abre o porta-malas,  tira tudo, guarda no devido lugar. E tem ainda o pensar a comida, o fazer a comida, o lavar a louça ( e os copos, e os talheres, e as panelas, e ...) coisas que sei bem até onde e onde gosto e até onde e onde odeio.  Ufa! Alguém sabe , pelo menos, se isso gasta calorias e quantas??? 
Bem, tem dia que é um total erro fazer compras. Pelo menos aqui onde moro, cidade operária que se acha pequena, mas é lotada de gente e vazia de infraestrutura. Se você vai cedo, não tem verduras e frutas. Se você vai tarde, não tem acha pequena mais verduras  e frutas. Se você vai  entre os dias 5 e 10, tem fila, se você vai no meio do mês, tem fila, se vai no final do mês, tem fila, se vai final de semana, nem entra. Se vai segunda, não tem nada nas prateleiras. Ufa 2!!!
Agora imagine: fui hoje, quinta, chovendo - o que não é muita novidade por aqui. E esqueci que eram as tais férias escolares - apesar da folga de não precisar levantar antes do galo cantar. Isso encheu os corredores de donas de casa ( ou só do trabalho da casa?) sem pressa, paradas nos corredores como quem reconhece coisas, ou de papo com a mulher do lado, amiga encontrada ou não. E suas respectivas e cheias de energia crianças  ( para que alguém em são consciência leva crianças num supermercado?) à mil, fazendo dos corredores local de brincar de se esconder ou de pegar!!! Fizeram do "supernadagrandemercado" um playground a céu coberto. E se não bastasse tudo isso, aqui é tempo de mil bailarinos a passear por ai. O festival de dança da cidade -  dizem, o maior do mundo - atrai todas as faunas que sobem ao palco para dançar. E são muitos - as faunas, os bailarinos, as danças e palcos - espalhados pela cidade. Eles também a passear e treinar passos pelos corredores como se o 'mercadinho' fosse um shopping. Isso que dá não dar a eles o que fazer
enquanto não disputam seu lugar no pódio.
Estressei. Quase um surto. Mas já passou. Tudo passa. E tem coisa que até se acha graça - ou se faz texto. Quem sabe da próxima vez eu ouço minha intuição e faço a coisa certa...seja lá o que isso for!

"Eu não quero a rotina desleixada do estresse, dia-a-dia comum.
Quero disciplina, luz, foco, tempo e espaço.
O aqui e o agora repetidos em diferentes aquis e agoras".
Verônica H., cronista

terça-feira, 19 de julho de 2011

Passo a passo


Sou um bicho estranho, confesso. As coisas estão ali, na minha cara, palmo do nariz, e eu faço de conta que não vejo. Como se negá-las fosse uma forma de resolvê-las. Como se fechando meus olhos para elas, fatalmente - ou felizmente - se autoextinguissem. Ledo e pobre engano. Abro os olhos e estão ali, do jeito que deixei, como louça suja na pia. Ninguém vai limpar. Ninguém vai resolver. Ninguém vai se descabelar, a não ser eu. O máximo que vai acontecer é  a sujeira acumular mais e mais. Os pratos se enfileirarem na pia. A roupa na gaveta das sujas.E eu, minha lista interminável de pendências. E, bem sei, o mundo está cheio de 'sabotadores de tarefas', não sou só eu. Se for internada por isso, ah, abram as portas, que comigo vai muita gente!
A cabeça humana chega  ser engraçada  na forma que nos prega peças. Sabemos o que tem que ser feito e deixamos passar, obrigações e até oportunidades, por medo de enfrentar ou sei lá o que. Nossa intuição está lá, sempre a postos, e nos fazemos de surdos. Tapados. Preguiça de viver, talvez, já que viver inclui tudo isso. Empurramos para amanhã as coisas que, sabemos, deveriam ser feitas hoje. E sabemos o quanto nos alivia a mente se resolvemos. Se fazemos. Se limpamos a pia e deixamos tudo luzindo. Está certo, amanhã, quem sabe pia novamente lotada, mas com outras coisas, permitidas, esperadas ou não, mas outras coisas. No meu caso, não uma pia, mas uma das tantas listas que faço -  e da qual acham até graça. Então, como diria Dona Betinha, ' me dá uns cinco minutos',  e resolvo fazer tudo de uma só vez, uma atrás da outral sem cansar, nem parar para pensar, num só dia,  parecendo uma louca desvairada - mas leve. E que delícia é riscar as pendências, uma a uma, no final do dia, amassar o papel das chatices e jogá-lo fora.
Respiro e deixo minha'lma livre para, enfim, me viver...Dei mais um passo, talvez pequeno para os outros, mas um gigante para mim. E que venha o amanhã e me traga a coragem que tive hoje , de dar um passo de cada vez, mas dar...

"Não são os grandes planos que dão certo. São os pequenos detalhes."
Stephen Kanitz, colunista da revista Veja, mestre em prever falências. Quem sabe destas, da vida...

domingo, 17 de julho de 2011

Crédula


Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio,
sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas.
Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital.
E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação,
perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui.
Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
Clarice Lispector

Abro meu blog e me assusto: faz uma semana que não escrevo, que não me curo. Como se não tivesse limpado minha casa interna. Tive uma semana turbulenta, cheia de temporais, destes que ficam pairando sobre a gente, assustadores, e por vezes vão cair no mar. E fica aquela sensação de desconforto: será que ele volta?
Pois bem, dei mais um passo. Passos que, por vezes, nem sei onde vão dar, mas são passos , e destes a gente nunca deve se arrepender, dizem. A vida é assim, cheia de esquinas, cheia de escolhas, de dúvidas e devaneios - e chego a me confundir se a vida é viver isso ou se é esse encontro diário com o que há de mais insano: decisões. Corroem a gente, pois nos pedem incessantemente respostas, boas ou em tanto. E ficamos ali, a mercê de uma mesa cheia de fichas de apostas, cheia de cartas viradas, e o dono da banca a nos perguntar a cada rodada: queres carta? Se são escolhas menores, essas que apenas enfeitam o dia, como o que se vai comer no almoço, leves, mando ver, corajosa. Mas se são escolhas de vida, muitas de caminhos longos e , quem sabe, sem saída, ah, como me custa resolver! Então, faço como me ensinaram a comer prato quente, mingau dos dias: vou aos poucos, tateando pelas beiradas.
Eu? Eu sou teimosa de natureza. Teimo, sempre e incansavelmente, em ser feliz - mesmo em detrimento da felicidade dos outros. Mesmo que me custe muito. Como se a minha vida fosse uma grande corrida maluca: é vencer ou vencer. E nem sempre dá para ser a Penélope Charmosa...
Tenho uma mania louca de achar que as coisas se resolvem de alguma forma. Que basta uma - ou muitas - conversas carinhosas com o meu santinho querido, ou o grande papai do céu, e a nuvem que paira sobre o dia se dissipa. Pena não poder levar ao pé da letra o dito popular de que se um problema é solúvel - mesmo que seja na base da porrada - não há com o que se preocupar. E se não tem solução, para que então pensar nele. Inevitavelmente lembro da minha mãe, que sempre defendia a tese que preocupação é pré -ocupar-se de algo, antes da hora - coisa que ela, ontem e hoje, não leva muito a sério: vive de, se alimenta. Mas se deixarmos a tempestade vir e não fecharmos a janela, sabe -se, por antecipação ou vivência, que caldo vai dar...Deve ser por isso que faço minhas listas. Como se pôr as coisas chatas ou difíceis de fazer ali fosse meio resolver. E que sensação boa me dá quando risco, uma a uma, na certeza de tê-las deixado para trás. E quanto pesam em  mim enquanto seguem listadas...
Por isso, e por tantas outras coisas, amei esse texto de Clarice, sempre tão seca e tão verdadeira que me acorda, se não na primeira lida,  na segunda e mais cuidadosa leitura, como quem acende o dia - e por isso afeta minha alma sonhadora. Como lutar contra devaneios, se esses são o tempero da vida? Como deixar de lado os sonhos se eles é que me dão leveza? Como deixar de sonhar? A vida, com certeza, não teria o mesmo gosto se não tivesse essas aventuras, paredões de assustar.
E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, querida Clarice, perco interiormente uma coisa muito suave,  que é me ser...Olho dentro de mim e me vejo mais limpa. Ponho na lista da vida a necessidade de me silenciar, e me expor, e me curar, sempre, por aqui. Crédula de me achar.

domingo, 10 de julho de 2011

Sê!



Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale,  mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Engraçado essa mania da vida me dar presentes. Como se eu, ainda em silêncio e de olhos fechados na cama, abrisse meu coração pedindo uma bênção. Uma luz, pode-se dizer. Um embalo para o dia além do sol radiante lá fora. Pode vir de uma cena da rua, uma cena de filme, uma estrofe da música que toca no rádio ao despertar. Da propaganda bem feita que me ilumina  a mente, da conversa franca de quem abre o coração. Como se me fizessem ter a mais plena certeza de que, sim, estou viva. E me vivendo plenamente, sejam lá quais forem as pedras no caminho - geralmente pedras com pernas, braço e uma boca maldita - dessas que nem se consegue fazer o tão famoso castelo.
 Sê o melhor no que quer que seja. Sê o melhor de ti. Sê qualquer coisa, mas sê por inteiro. E dê o melhor de ti, das minúsculas às enormes coisas: do olhar que compreende e acolhe, do abraço que recebe e acalma. Ouve com o coração o que o outro tem a dizer. Abraça como quem vira porto em noite de temporal. Ou, simplesmente, faz um chá...
Em resumo: sê amor. Parece piegas, mas não é. E meu raciocínio é meio razão e meio emoção, o que dá a ele um belo de um respaldo. Ele limpa nossa mente de qualquer maldade, de qualquer pré julgamento, de qualquer preconceito que, como todo 'pré algo', sela nossos olhos, tampa nossos ouvidos, abre nossa boca mesmo antes do outro se expor. Como se antecipássemos o outro. Como se nos achássemos no direito de sê-lo - sem nem sabermos direito nos ser. Expomos do outro 'erros' e 'defeitos' que temos ou que morremos de medo de ter. Cutucamos no outro a ferida que nos dói. Não vemos direito, escutamos só o que nos interessa e falamos antes da hora. Ou, pior: ferimos , sangramos,  com a arma infecciosa de quem sabe o outro - ou pensa que sabe. E parece que quanto mais sabemos do outro, mais fácil essa batalha insana de derrotá-lo. Por que o que derrota o outro - e a gente, todo dia e toda hora - é a própria mente, anjo e diabo o dia todo discutindo o que temos - ou pressupomos ter -  de bom e de ruim. Anjo e diabo de nós mesmos, a nos cobrar coisas, transbordar culpas, corretas ou não, devidas ou não - e geralmente tudo junto.
Sábio Neruda que nos deu as tintas para um belo quadro, seja lá qual for o tema. Ou belas palavras para um lindo poema. Se não dá de um jeito, dá de outro. Se não tem amarelo, vai de azul. Se não tem rima, tira da palavra toda a sua graça. Se não somos assim, podemos ser assados. Se não somos tudo o que sonhamos ser - e nisso muito sonho dos outros e não nossos - nada somos? Errado. Neruda profetiza: não é pelo tamanho que teremos êxito ou fracasso...mas pelo melhor que somos  no que quer que seja... Seja lá o que isso seja! Desde que sejamos...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nas nuvens



Inveja eu tenho, muitas, mas destas sem muito pecado: basta falar com meu querido São Francisco de Assis e  a coisa passa reto. Mas essa madrugada, quando acordei do nada e nada de voltar a  dormir, dados aos tantos e tantos personagens conversando dentro de mim, revisando agendas e check list, invejei os computadores, sejam eles grandes  trambolhos ou minúsculos laps. Até um palm top, um tablet ou um 'réles' celular.
Não, ainda não endoideci de vez. E explico: gostaria de arquivar memórias num lugar em que elas só viessem à tona se eu, pessoalmente e não delegando culpas e pensamentos desconexos, acessasse lá. Nem muito menos essa interminável lista de tarefas que crio do nada, completas e complexas - 
e das quais nem lembro pela manhã.
Já as boas ideias eu gostaria de ter um atalho logo na entrada, ali, bem visível para mim. Assim, estariam ali me cobrando respostas. Ah, sim, e uma 'powermegaultrasuper' potência para não faltar espaço para nada, pois quero muito, de mim e  da vida. Arquivar cada pensamento bom, cada imagem que se faz inesquecível e a gente esquece, cada poema que tento buscar em mim e não vem. Para acessar ultrarápido o que quero e deletar  - se possível para nçao mais voltar - na mesma rapidez o que não me interessa mais - ou que nunca interessou -  pois a memória humana, tola,  tem dessas armadilhas, como se fôssemos cobrados no juízo final. Tudo está lá, tim-tim por tim-tim, sem tirar nem pôr. Até os arquivos mais secretos, que só a  gente sabe, e Deus, e  talvez as paredes - invariavelmente bem aqueles que se quer mandar 'pros quintos' .
Que bom se eu tivesse em minha mente um desses programas que meu lap tem, que limpa tudo, deleta para sempre - e sei lá para onde manda -  tudo o que não me interessa mais. Devem ser tais quais as  tais nuvens tão mal conhecidas e já tão mal faladas ( as minhas coloridas, claro, mesmo detestadas!). Aqueles, que não quero que ninguém acesse. Meus segredos, meus medos, meus sonhos jamais revelados. Que exalte só meu lado bom, em arquivo e bem detalhado. E quem quissesse - ou se achasse no direito de roubá-los, teria que ter uma senha, a minha senha, a quem daría  se assim fizesse por merecer, por quem achasse em mim o amor. Mas que pudessemos 'trocar', senha e acessador, tão logo a coisa desandasse, nunca se sabe. Ah, e por fim, que pudesse mudar a minha cara, com quem muda o papel de parede. Não que eu não goste dela, mas ando bem enjoada. Por fim , um HD externo, onde a parte 'rosa' de minha vida fosse guardada e pudesse , a qualuer hora, acessar o que tive  de melhor para ver se me trato bem, se redescubro o meu valor.
E , por último, e talvez o mais interessante, invejo os computadores, porque eles detém uma atenção que muita gente não ganha.
Ainda bem que não sou eu.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Esquenta...


Frio. Muito frio. Como minha memória é bem rasa e não lembra do nem do que aconteceu ontem ( que exagero!),  não me lembro de ter passado tanto frio.
Não se engane: gosto do frio. Nada contra, esses, de rachar, mas se estivéssemos preparados. Onde eu mor, na bela e Santa Catarina, esse povo para lá de deixa disso, a gente sempre pensa - amanhã passa. Como um bom pescador que, se hoje não deu peixe, nem esquenta, toma a sua cachaça e volta amanhã. Sabe que é capricho da natureza e que com ela melhor nem teimar. E quando falo que não estamos preparados, lembro dos cafés e casas da minha querida Buenos Aires, sempre prontos a nos agradar, no calor ou no frio. Aqui deve ser teimosia de quem acredita piamente que mora num país tropical - mas esquece que o buraco é mais em baixo, ou melhor dizendo, que o trópico quente fica mais acima. Bem mais acima.
Mas frio me faz lembrar coisas boas. Não me lembro de ter passado frio na minha infância. Quando muito, lembro de minha mãe aquecendo o banheiro com  a queima de álcool - hoje considerado um perigo, mas quem se importava na época? O que importava era um banho rápido, sim, mas quente.E recheado de gritinhos, coisas que aquecem a  infância e a temperam. Ou belos banhos em bacia de alumínio, que delícia...À mãe cabia manter a água sempre quente.
E as visitas aos parentes. Sim, nas férias de Inverno, onde se passava bela parte delas visitando parentes. Meu pai gostava disso, acho que minha mãe também. Pais nada workholic como os de hoje: tinha o tempo de trabalhar e o tempo de se divertir - e em família. E lá íamos os sete, contando com pai e mãe. Ou oito, se contando com o cachorro, previamente 'dopado' pela minha mãe. A primeira parada era para um 'esquenta no motorista' , com um café  com leite de garrafa térmica com o inesquecível 'sanduíche feito de véspera' - o que tem um outro gosto. Tínhamos até os copinhos de viagem e os guardanapos de pano xadrez. Pegava-se mais chão até a próxima parada: um almoço , 'em lugar bem bonito', com a nada famigerada 'galinha com farofa', e sabe-se lá mais o que. E,enfim,a casa esperada, seja de tia, avó ou qual mais parentada. As sopas bem preparadas, a conversa engraçada, as camas bem arrumadas, lotadas de cobertores.
E ele, o fogão à lenha, sempre ali, funcionando. Ele, alma da casa , tudo aquecendo, comida e a semrpe pronta água do chimarrão. O cheiro bom da galinhada, do bolo de fubá tinindo no forno, um café fora de hora, o barulhinho desligante da madeira chiando. E as conversas, longas e  detalhadas de quem casou com quem, quem morreu e quem nasceu, as fofocas de tudo e de todos, prosa em dia, até não ter mais. Os adultos com suas bundas achatadas nas cadeiras de palha e a gente  correndo e se cansando por ai, num corre para cá , corre para lá, á cata de novidades, vendo tudo como se fôssemos embora já, já. E vindo se esfregar em pai e mãe, pedir colo quando o sono chegava. E como chegava bem...
Ai, era o tal banho de gritinhos, a toalha bem esfregada, a cama cheirosa e bem arrumada , o beijo na testa. E, claro, as mãozinhas na boca para não soltar a gargalhada e levar bronca. Até que o cansaço vencesse e a gente dormisse sem nem contar carneiros, pobrezinhos.
Frio é frio, mas aquece a'lma. em cheiro de coisa boa, de aconchego e carinho. Nem que seja com o cachorro....
Como disse certa vez  Carlos Drummond de Andrade,
"Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons".
Ou no calor de um fogão à lenha...

sábado, 2 de julho de 2011

Play me!



Não paro de pensar e de repetir. Oitenta e oito pianos - doados, tratados, decorados e carregados  por voluntários , o que faz toda a diferença -  foram espalhados por praças e lugares públicos da barulhenta Nova Iorque - assim, bem 'abrasileirada'. Oitenta e oito coloridos pianos, alegres em serem expostos, tocados, acariciados por dedos ávidos, experientes ou não. Felizes me serem o que são: instrumentos de som. E muito mais: instrumentos de emoção. Eu, tola e romântica manteiguinha derretida, emocionei-me, com a ideia e com o fazer - porque de boas ideias nossas cabeças estão cheias, mas cadê coragem para colocá-las em prática? Por preguiça ou por já adiantarmos um não em nós, desistimos de tantas e tantas que, se postas em prática, fariam alguém feliz - nem que só a nós mesmas...
Piano. Uma peça tão mistificada - talvez dado ao seu tamanho, não tão facilmente carregável como um violão. talvez pelo som, por vezes e errôneamente pensado como erudito, talvez pela sua figura em si, real ou vendida, de ser chique. Ou por ser intransponivelmente pesado de se pegar e levar pela mão. Um piano, 'mero' instrumento musical, guardado a sete chaves em casas tradicionais , museus e salas de espetáculos. Um charme. Um esplendor. Para mim, emociona-me o simples ato de ver um, quem dirá tocar - no primeiro sentido de pôr a mão. Fiz isso raras vezes em minha vida - uma delas tocando o 'bife' ( porque será que eu chamava assim?) na casa de amiga - ela odiando o treino, eu amando escutar, o som do tal e do tal marcador de compasso. E quem dirá tocar, no belo sentido de tirar dele o seu melhor - ou o meu melhor, coisas bem diferentes, mas igualmente boas. Um piano. Bem ali, no meio do caminho, como diria Drummond. No meio do dia. No meio do 'nada', do inesperado, do incrédulo lugar...quem vai tocar? Pessoas livres, de mente aberta, sem meus resquícios de menina educada a não tocar em nada que não fosse meu, ou que não fosse expressamente permitido - ou melhor dizer, insistentemente convidada.
A vida devia nos dar mais liberdades como essa. Mais surpresas pelo dia. Mais pianos pelo caminho. E aos que não respeitam nem vacas decoradas e outras artes espalhadas, mais respeito. Mais convívio, quem sabe acostumavam. Meu respeito mora bem perto do medo, e é vizinho da vergonha: uma pena, perco muito. Mas queria estar lá para quebrar mais essa barreira. Nem que fosse para sentar e tirar uma simples foto. Eu, ali, em por breve momento, pianista.
E me permita o mestre Carlos Drummond de Andrade esse trocadilho infame. Quem sabe eu repetindo , assim, tantas e tantas vezes, perca o medo de ser feliz...

No meio do caminho tinha um piano
Tinha um  piano no meio do caminho
Tinha um piano
No meio do caminho tinha um piano
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas e de minha timidez araigada
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um colorido piano
Tinha um colorido e solitário piano no meio do caminho
No meio do caminho tinha um piano...e eu o toquei!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Muito!



"Não vou deixar a porta entreaberta.
Vou escancará-la ou fechá-la de vez.
Porque pelos vãos, brechas e fendas passam semiventos,
meias verdades e muita insensatez".
Cecilia Meireles

Adorei essa frase que postaram no "Mundo Encantado do Facebook". E me identifiquei. Talvez porque mulher, talvez porque poeta, talvez porque inquieta. Também não sei ser metade, nem pouco. Nem fresta, ou porta entreaberta.Sou toda escancarada. Direta . Sincera. Entregue. Posso até pegar mil, caminhos, mas sei bem onde quero chegar. Ah, e quando me empolgo, melhor deixar eu atracar, devorar, me meter, procurar e encontrar, de estudos a escritas, ou até a comida a fazer. Gosto. Faço. Sinto. Vivo. Uma explosão de entusiasmo. Ou me fecho, nego, silencio, se não quero tal coisa para mim. Como se meu desprezo a fizesse minguar. Quem sabe some?
Sou tudo e ao mesmo tempo.  Sou muito em tudo que faço, pura energia, do comer ao falar - apesar de que meu filho está ganhando de mim nesse quesito (quem falou que adolescente é quieto?) e por vezes no outro também - eu perco por puro juízo. E, sinto, mas azar de quem tiver  - ou quiser - que me aguentar. Sou.
Sou do sol entrando sorridente pela janela ou do breu, black out - não me venha com frestinha de luz - nem consigo relaxar, como se meio dia  me chamasse  e não a vida. Não me venha com meia luz, a não ser que tenha 'más' intenções. Mas também não ligue a luz total do quarto a fim de me cegar. E se o tema for comida, sai da frente, querida, sou do prato cheio - não sou de food design. Nem comer como devagar, devoro, tudo, entusiamada, o que gosto. Mordida? Nem morta. Sorvete? Delírio, de balde e na base da colherada. Biscoito, bombom ou docinho? Nem vem com um só - um amigo já disse que isso é lenda. Até para escrever exagero, nunca fico na meia página, no meio texto, por vezes sobra - e olha que  tenho me policiado ( a nova geração detesta ler...).
Quer conversar? Puxa a cadeira e se acomode: adoro deixar o tempo passar passeando com  as palavras, minhas e do outro.  Juntar ideias, compor novas, rememorar. Livraria? Nem me leve, ou me ajude a carregar - e pagar - se puder. Discos? Nem compro mais: por mim tinha todos...ou quase, melhor explicar.
Cecilia tem razão. Meias frestas são mistério e  medo. Porta entreaberta nos faz pensar no que vem de lá, desassossego, coisa de Lobo Mau. Ventos são bons quando sinceros, não traiçoeiros. De  meias verdades - ou mentiras meias - o mundo está cheio - e o inferno também. De insensatez, então, nem se fale: não me vale. Melhor nem começar.
Quem me conhece de verdade sabe. Sonho alto. Quero muito - um muito próprio meu, nada comercial. Sou uma ou mais. Enorme. Um exagero. Até no amar.