sábado, 2 de julho de 2011

Play me!



Não paro de pensar e de repetir. Oitenta e oito pianos - doados, tratados, decorados e carregados  por voluntários , o que faz toda a diferença -  foram espalhados por praças e lugares públicos da barulhenta Nova Iorque - assim, bem 'abrasileirada'. Oitenta e oito coloridos pianos, alegres em serem expostos, tocados, acariciados por dedos ávidos, experientes ou não. Felizes me serem o que são: instrumentos de som. E muito mais: instrumentos de emoção. Eu, tola e romântica manteiguinha derretida, emocionei-me, com a ideia e com o fazer - porque de boas ideias nossas cabeças estão cheias, mas cadê coragem para colocá-las em prática? Por preguiça ou por já adiantarmos um não em nós, desistimos de tantas e tantas que, se postas em prática, fariam alguém feliz - nem que só a nós mesmas...
Piano. Uma peça tão mistificada - talvez dado ao seu tamanho, não tão facilmente carregável como um violão. talvez pelo som, por vezes e errôneamente pensado como erudito, talvez pela sua figura em si, real ou vendida, de ser chique. Ou por ser intransponivelmente pesado de se pegar e levar pela mão. Um piano, 'mero' instrumento musical, guardado a sete chaves em casas tradicionais , museus e salas de espetáculos. Um charme. Um esplendor. Para mim, emociona-me o simples ato de ver um, quem dirá tocar - no primeiro sentido de pôr a mão. Fiz isso raras vezes em minha vida - uma delas tocando o 'bife' ( porque será que eu chamava assim?) na casa de amiga - ela odiando o treino, eu amando escutar, o som do tal e do tal marcador de compasso. E quem dirá tocar, no belo sentido de tirar dele o seu melhor - ou o meu melhor, coisas bem diferentes, mas igualmente boas. Um piano. Bem ali, no meio do caminho, como diria Drummond. No meio do dia. No meio do 'nada', do inesperado, do incrédulo lugar...quem vai tocar? Pessoas livres, de mente aberta, sem meus resquícios de menina educada a não tocar em nada que não fosse meu, ou que não fosse expressamente permitido - ou melhor dizer, insistentemente convidada.
A vida devia nos dar mais liberdades como essa. Mais surpresas pelo dia. Mais pianos pelo caminho. E aos que não respeitam nem vacas decoradas e outras artes espalhadas, mais respeito. Mais convívio, quem sabe acostumavam. Meu respeito mora bem perto do medo, e é vizinho da vergonha: uma pena, perco muito. Mas queria estar lá para quebrar mais essa barreira. Nem que fosse para sentar e tirar uma simples foto. Eu, ali, em por breve momento, pianista.
E me permita o mestre Carlos Drummond de Andrade esse trocadilho infame. Quem sabe eu repetindo , assim, tantas e tantas vezes, perca o medo de ser feliz...

No meio do caminho tinha um piano
Tinha um  piano no meio do caminho
Tinha um piano
No meio do caminho tinha um piano
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas e de minha timidez araigada
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha um colorido piano
Tinha um colorido e solitário piano no meio do caminho
No meio do caminho tinha um piano...e eu o toquei!

2 comentários:

  1. que liiiindo!!!
    lá em cima do piano tinha um copo com florzinhas, mas mais cheirosas, lindas que enchem de alegria os coraçoes de quem os recebeu!!

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  2. Te vi lá, tocando, coisa doida, viajei!!
    Teus textos tem esse poder: nos deligar do mundo!ADORO!
    Grata pela noticia e pelo texto!!!
    Lu

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