quarta-feira, 6 de julho de 2011

Nas nuvens



Inveja eu tenho, muitas, mas destas sem muito pecado: basta falar com meu querido São Francisco de Assis e  a coisa passa reto. Mas essa madrugada, quando acordei do nada e nada de voltar a  dormir, dados aos tantos e tantos personagens conversando dentro de mim, revisando agendas e check list, invejei os computadores, sejam eles grandes  trambolhos ou minúsculos laps. Até um palm top, um tablet ou um 'réles' celular.
Não, ainda não endoideci de vez. E explico: gostaria de arquivar memórias num lugar em que elas só viessem à tona se eu, pessoalmente e não delegando culpas e pensamentos desconexos, acessasse lá. Nem muito menos essa interminável lista de tarefas que crio do nada, completas e complexas - 
e das quais nem lembro pela manhã.
Já as boas ideias eu gostaria de ter um atalho logo na entrada, ali, bem visível para mim. Assim, estariam ali me cobrando respostas. Ah, sim, e uma 'powermegaultrasuper' potência para não faltar espaço para nada, pois quero muito, de mim e  da vida. Arquivar cada pensamento bom, cada imagem que se faz inesquecível e a gente esquece, cada poema que tento buscar em mim e não vem. Para acessar ultrarápido o que quero e deletar  - se possível para nçao mais voltar - na mesma rapidez o que não me interessa mais - ou que nunca interessou -  pois a memória humana, tola,  tem dessas armadilhas, como se fôssemos cobrados no juízo final. Tudo está lá, tim-tim por tim-tim, sem tirar nem pôr. Até os arquivos mais secretos, que só a  gente sabe, e Deus, e  talvez as paredes - invariavelmente bem aqueles que se quer mandar 'pros quintos' .
Que bom se eu tivesse em minha mente um desses programas que meu lap tem, que limpa tudo, deleta para sempre - e sei lá para onde manda -  tudo o que não me interessa mais. Devem ser tais quais as  tais nuvens tão mal conhecidas e já tão mal faladas ( as minhas coloridas, claro, mesmo detestadas!). Aqueles, que não quero que ninguém acesse. Meus segredos, meus medos, meus sonhos jamais revelados. Que exalte só meu lado bom, em arquivo e bem detalhado. E quem quissesse - ou se achasse no direito de roubá-los, teria que ter uma senha, a minha senha, a quem daría  se assim fizesse por merecer, por quem achasse em mim o amor. Mas que pudessemos 'trocar', senha e acessador, tão logo a coisa desandasse, nunca se sabe. Ah, e por fim, que pudesse mudar a minha cara, com quem muda o papel de parede. Não que eu não goste dela, mas ando bem enjoada. Por fim , um HD externo, onde a parte 'rosa' de minha vida fosse guardada e pudesse , a qualuer hora, acessar o que tive  de melhor para ver se me trato bem, se redescubro o meu valor.
E , por último, e talvez o mais interessante, invejo os computadores, porque eles detém uma atenção que muita gente não ganha.
Ainda bem que não sou eu.

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Um comentário:

  1. É o desejo de todos. Podes crer amizade!!!
    BJ,
    Meg

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