segunda-feira, 4 de julho de 2011

Esquenta...


Frio. Muito frio. Como minha memória é bem rasa e não lembra do nem do que aconteceu ontem ( que exagero!),  não me lembro de ter passado tanto frio.
Não se engane: gosto do frio. Nada contra, esses, de rachar, mas se estivéssemos preparados. Onde eu mor, na bela e Santa Catarina, esse povo para lá de deixa disso, a gente sempre pensa - amanhã passa. Como um bom pescador que, se hoje não deu peixe, nem esquenta, toma a sua cachaça e volta amanhã. Sabe que é capricho da natureza e que com ela melhor nem teimar. E quando falo que não estamos preparados, lembro dos cafés e casas da minha querida Buenos Aires, sempre prontos a nos agradar, no calor ou no frio. Aqui deve ser teimosia de quem acredita piamente que mora num país tropical - mas esquece que o buraco é mais em baixo, ou melhor dizendo, que o trópico quente fica mais acima. Bem mais acima.
Mas frio me faz lembrar coisas boas. Não me lembro de ter passado frio na minha infância. Quando muito, lembro de minha mãe aquecendo o banheiro com  a queima de álcool - hoje considerado um perigo, mas quem se importava na época? O que importava era um banho rápido, sim, mas quente.E recheado de gritinhos, coisas que aquecem a  infância e a temperam. Ou belos banhos em bacia de alumínio, que delícia...À mãe cabia manter a água sempre quente.
E as visitas aos parentes. Sim, nas férias de Inverno, onde se passava bela parte delas visitando parentes. Meu pai gostava disso, acho que minha mãe também. Pais nada workholic como os de hoje: tinha o tempo de trabalhar e o tempo de se divertir - e em família. E lá íamos os sete, contando com pai e mãe. Ou oito, se contando com o cachorro, previamente 'dopado' pela minha mãe. A primeira parada era para um 'esquenta no motorista' , com um café  com leite de garrafa térmica com o inesquecível 'sanduíche feito de véspera' - o que tem um outro gosto. Tínhamos até os copinhos de viagem e os guardanapos de pano xadrez. Pegava-se mais chão até a próxima parada: um almoço , 'em lugar bem bonito', com a nada famigerada 'galinha com farofa', e sabe-se lá mais o que. E,enfim,a casa esperada, seja de tia, avó ou qual mais parentada. As sopas bem preparadas, a conversa engraçada, as camas bem arrumadas, lotadas de cobertores.
E ele, o fogão à lenha, sempre ali, funcionando. Ele, alma da casa , tudo aquecendo, comida e a semrpe pronta água do chimarrão. O cheiro bom da galinhada, do bolo de fubá tinindo no forno, um café fora de hora, o barulhinho desligante da madeira chiando. E as conversas, longas e  detalhadas de quem casou com quem, quem morreu e quem nasceu, as fofocas de tudo e de todos, prosa em dia, até não ter mais. Os adultos com suas bundas achatadas nas cadeiras de palha e a gente  correndo e se cansando por ai, num corre para cá , corre para lá, á cata de novidades, vendo tudo como se fôssemos embora já, já. E vindo se esfregar em pai e mãe, pedir colo quando o sono chegava. E como chegava bem...
Ai, era o tal banho de gritinhos, a toalha bem esfregada, a cama cheirosa e bem arrumada , o beijo na testa. E, claro, as mãozinhas na boca para não soltar a gargalhada e levar bronca. Até que o cansaço vencesse e a gente dormisse sem nem contar carneiros, pobrezinhos.
Frio é frio, mas aquece a'lma. em cheiro de coisa boa, de aconchego e carinho. Nem que seja com o cachorro....
Como disse certa vez  Carlos Drummond de Andrade,
"Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons".
Ou no calor de um fogão à lenha...

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