domingo, 17 de julho de 2011

Crédula


Lutei toda a minha vida contra a tendência ao devaneio,
sempre sem jamais deixar que ele me levasse até as últimas águas.
Mas o esforço de nadar contra a doce corrente tira parte de minha força vital.
E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação,
perco interiormente uma coisa muito suave de se ser e que nada substitui.
Mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
Clarice Lispector

Abro meu blog e me assusto: faz uma semana que não escrevo, que não me curo. Como se não tivesse limpado minha casa interna. Tive uma semana turbulenta, cheia de temporais, destes que ficam pairando sobre a gente, assustadores, e por vezes vão cair no mar. E fica aquela sensação de desconforto: será que ele volta?
Pois bem, dei mais um passo. Passos que, por vezes, nem sei onde vão dar, mas são passos , e destes a gente nunca deve se arrepender, dizem. A vida é assim, cheia de esquinas, cheia de escolhas, de dúvidas e devaneios - e chego a me confundir se a vida é viver isso ou se é esse encontro diário com o que há de mais insano: decisões. Corroem a gente, pois nos pedem incessantemente respostas, boas ou em tanto. E ficamos ali, a mercê de uma mesa cheia de fichas de apostas, cheia de cartas viradas, e o dono da banca a nos perguntar a cada rodada: queres carta? Se são escolhas menores, essas que apenas enfeitam o dia, como o que se vai comer no almoço, leves, mando ver, corajosa. Mas se são escolhas de vida, muitas de caminhos longos e , quem sabe, sem saída, ah, como me custa resolver! Então, faço como me ensinaram a comer prato quente, mingau dos dias: vou aos poucos, tateando pelas beiradas.
Eu? Eu sou teimosa de natureza. Teimo, sempre e incansavelmente, em ser feliz - mesmo em detrimento da felicidade dos outros. Mesmo que me custe muito. Como se a minha vida fosse uma grande corrida maluca: é vencer ou vencer. E nem sempre dá para ser a Penélope Charmosa...
Tenho uma mania louca de achar que as coisas se resolvem de alguma forma. Que basta uma - ou muitas - conversas carinhosas com o meu santinho querido, ou o grande papai do céu, e a nuvem que paira sobre o dia se dissipa. Pena não poder levar ao pé da letra o dito popular de que se um problema é solúvel - mesmo que seja na base da porrada - não há com o que se preocupar. E se não tem solução, para que então pensar nele. Inevitavelmente lembro da minha mãe, que sempre defendia a tese que preocupação é pré -ocupar-se de algo, antes da hora - coisa que ela, ontem e hoje, não leva muito a sério: vive de, se alimenta. Mas se deixarmos a tempestade vir e não fecharmos a janela, sabe -se, por antecipação ou vivência, que caldo vai dar...Deve ser por isso que faço minhas listas. Como se pôr as coisas chatas ou difíceis de fazer ali fosse meio resolver. E que sensação boa me dá quando risco, uma a uma, na certeza de tê-las deixado para trás. E quanto pesam em  mim enquanto seguem listadas...
Por isso, e por tantas outras coisas, amei esse texto de Clarice, sempre tão seca e tão verdadeira que me acorda, se não na primeira lida,  na segunda e mais cuidadosa leitura, como quem acende o dia - e por isso afeta minha alma sonhadora. Como lutar contra devaneios, se esses são o tempero da vida? Como deixar de lado os sonhos se eles é que me dão leveza? Como deixar de sonhar? A vida, com certeza, não teria o mesmo gosto se não tivesse essas aventuras, paredões de assustar.
E, se lutando contra o devaneio, ganho no domínio da ação, querida Clarice, perco interiormente uma coisa muito suave,  que é me ser...Olho dentro de mim e me vejo mais limpa. Ponho na lista da vida a necessidade de me silenciar, e me expor, e me curar, sempre, por aqui. Crédula de me achar.

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